Posts

Cap. 30 - Cruzando a porta

A porta do vagão abriu-se e uma luz cegou minha visão infantil. O brilho ofuscante era um convite. Como quiséramos chegar. Como choramos esperando estar ali. Como sofremos porque estávamos exaustos e ainda tão distantes. Milhares de quilômetros de distância. Agora estávamos ali diante da porta do vagão do trem. Finalmente chegamos! A voz de meu pai interrompeu: Vamos! Ao cruzarmos a porta do vagão, vimos milhares de pessoas à nossa frente! Um grupo em especial segurava cartazes com nossos nomes e fotos. "Herzlich willkommen", li num cartaz. Embora eu ainda não conhece o idioma alemão, eu sabia o que significava. Estava estampado nos rostos das pessoas ao redor. Sorrisos. Algumas lágrimas. Eu e meus irmãos ganhamos alguns presentes ali mesmo, na plataforma da estação. Ursos de pelúcia e doces. Meus pais choravam de alegria e repetiam "vielen Dank".   Não sei como, mas os novos amigos de nossa família providenciaram tudo para nós. Entregaram a chave de nossa nova ...

Cap. 31 - Labibah

Sinto-me feliz por estar com minha família nessa cidade. Depois de tudo o que enfrentamos, encontramos um novo propósito. E ele surgiu logo nos primeiros dias em Frankfurt. Caminhando pela cidade, andando de trem ou olhando pela janela, vimos que nossa situação era apenas uma gota em um grande oceano. Nossos olhos foram se abrindo para a grande mistura de pessoas. Ainda impressiona-me, mesmo depois de tantos anos, a multiplicidade de culturas estampada nos rostos dos que caminham pela cidade. Asiáticos e árabes certamente se destacam. Entretanto, as nacionalidades são da casa das centenas. Aqui é comum não ter passaporte vermelho. Aliás, ser cidadão de Frankfurt é ser um cidadão estrangeiro. As pessoas são muitas e elas não param. Estão sempre andando. Arrastando malas de rodinhas, ou carregando mochilas nas costas. Estão sempre indo a algum lugar. Sempre carregando coisas. As pessoas aqui nunca param. Também não param de chegar. Cada uma delas tem uma história única. Verdadeira ep...

Cap. 32 - Kadar

Era dia de teste de proficiência em alemão e muitos candidatos não eram meus alunos. Eram pessoas que iam somente realizar essa prova. Então eu estava acostumado a ver rostos desconhecidos nesses dias. Estava prestes a iniciar a prova, quando dois rapazes entraram na sala de aula. Enquanto eu falava,  percebi que olhavam fixamente para mim. Um filme passou em minha mente. Sabíamos quem éramos e o que se passara entre nós. Se não houvessem me espancado. Se não tivessem tido a maldita ideia de me roubar, eu não teria ido àquele hospital. Labibah não teria deixado as crianças do lado de fora do hospital. Não haveria banheiro químico em nosso caminho. Nem policiais nos nossos leitos de UTI. Os odiava ontem, quando não os via. Como é fácil odiar quem não vemos; de quem apenas temos uma ideia pré-moldada. Mas quando vemos, enxergamos pessoas semelhantes a nós. Na prova foram bem. Atestei sua proficiência com o idioma alemão e os liberei. Não houve pedido de desculpas. Apenas olhares de...

Cap. 33 - Daniyal

Fui eu quem deu a ideia para minha mãe escrever um blog. Então ela começou a contar detalhadamente episódios do que nos havia acontecido. Muitas situações ela me perguntava como tinha sido, para se certificar que sua memória estava clara a respeito. Também queria saber o que foi que eu pensei naquele momento. Se tive medo. Se entendi o que aconteceu. Sentado ao seu lado, em frente ao computador, nossas conversas pareciam não ter fim e nos aproximaram muito nas primeiras semanas em Frankfurt. Com o tempo comecei a escrever também. Meu ponto de vista de nossa história. Tudo o que passamos não foi a história mais triste. Outras famílias perderam suas vidas na travessia do mar. Outras adoeceram e morreram em algum ponto da travessia. Outras famílias apenas uma parte conseguiu chegar ao destino. Muitas ficaram presas numa burocracia sem fim em acampamentos precários, desumanos. Qualquer uma dessas coisas poderia ter acontecido conosco. Cresci recontando nossa história. Não para atrair a ...

Cap. 34 - Najma

Tenho algumas lembranças de nossa viagem até a Alemanha. São como flashes , que vez ou outra me vêm à mente. Eu usava um vestidinho vermelho no dia em que saímos às pressas de Aleppo, carregada por meu pai. Às vezes tenho lembranças de algumas coisas da Síria. Esses dias, meu pai chegou em casa com uma porção de falafel. O cheiro estava ótimo. Enquanto eu apreciava aqueles deliciosos bolinhos de grã-de-bico, lembrei de estar sentada com outras crianças, num divertido pique-nique. Comíamos falafel. Minha memória síria também é ativada quando entro num mercado árabe. É como se já tivesse visto aquelas comidas, as estampas dos tapetes, as cortinas. E penso, como é possível lembrar dessas coisas, vinte anos depois! Gosto muito de passear pelos mercados da cidade, mas não somente. Sinto-me em paz quando ando pela cidade, seja ela qual for, em qual lugar do mundo. A cidade é minha casa. Caminho. Caminho. Caminho. Desfruto da brisa em meu rosto, do balanço das árvores, do céu, do pôr do s...

Cap. 35 - Yusef

É claro que não tenho lembranças de nossa saída da Síria e toda viagem até a Alemanha. Talvez por isso, sempre senti como se fosse natural de Frankfurt. Minhas memórias de infância são daqui. Aprecio cada canto dessa cidade... não sei se tem algum onde nunca tenha pisado. Sei que tenho uma vida toda pela frente, como dizem os mais velhos. Terminar a faculdade, talvez fazer outra. Fazer escolhas com toda a liberdade e ir avançando rumo ao futuro. Cresci fazendo parte de uma história de refugiados. Felizmente, nosso deslocamento acabou quando chegamos aqui. Nunca me senti impróprio para esse lugar. Pelo contrário, acho que sou o sírio mais alemão que essa cidade já conheceu. O interessante é que tenho amigos em toda parte do mundo. Fruto do trabalho humanitário que meus pais acabaram desenvolvendo. Por isso, posso ver que há algumas coisas que são comuns entre os jovens. Por exemplo, muitos estão deslocados. E não é uma questão de ser refugiado, geograficamente falando. Muitos são nat...