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Cap. 8 - Esperança

O pai pagou ao piloto do bote. Armado, o piloto-marujo-soldado desapareceu na orla. Não preocupou-se com o bote que ficou jogado a beira-mar e mais tarde foi retirado pela polícia local.  O casal sírio não sabia se sentia amargura ou gratidão pela travessia no mar. Difícil de decidir, naquele momento. Provavelmente seria gratidão, pois viram a morte na força das ondas. Nas armas dos atravessadores também. Não esperavam por tamanha intimidação. Realmente acreditavam que sua viagem seria mais segura do que aquelas vistas nas notícias. Já não era questão de lamentar ou reclamar. Estava feito. Atravessaram. Embora estivessem em terra, ela não era firme. Um sentimento de insegurança brotou assim que subiram uma elevação de areia, coberta de vegetação beira-mar. Avistaram a praia dos turistas ao longe, ainda vazia. As pessoas chegariam só mais tarde, para deitarem nas cadeiras de praia, alheias a tudo o que se passara no começo do dia. À frente outro tipo de pessoas indicavam a direção...

Cap. 9 - Today! Today!

Quando acordei já era noite. Minha mãe estava sentada ao nosso lado e meus irmãos dormiam. Daniyal, vou ali no banheiro, fique aqui. Logo ela voltou; só agora ela tinha trocado suas roupas molhadas. Então ela permitiu que eu fosse ao banheiro também. Estava muito frio. Mãos entregaram sopa quentinha para nós. Tinha um gosto estranho. Não tinha canela, como a sopa que minha mãe fazia em casa. Mas comemos. Até Yuesef. Então, ficamos ali parados, olhando para os prédios, as pessoas, as luzes das luminárias da praça. Por muito tempo. Uma jovem aproximou-se de nós e ofereceu-se para nos levar até um alojamento. Por causa das crianças, the children,  ela disse. Mas minha mãe não aceitou. Ela preferiu esperar por meu pai. Ele poderia ficar desesperado se não nos encontrasse quanto chegasse de volta à praça. E nós estávamos tranquilos. Então, a garota saiu e, depois de um tempo, voltou, com casacos e mais dois cobertores para nós. A noite estava clara e com todas as luzes acesas, não ha...

Cap. 10 - It's Good

Policiais vieram nos ajudar a levantar e abriram uma parte da cerca para que voltássemos à fila, atrás de um grupo de jovens. Aos poucos foram chegando caminhões e muitas pessoas. Elas começaram a montar tendas brancas ao lado da fila. Logo passaram outras, trazendo garrafas de água e sanduíches. Depois outros caminhões, distribuindo camas dobráveis que foram colocadas dentro das tendas. Essas pessoas nem precisaram insistir para que fôssemos para dentro de uma das grandes barracas. Meu pai ficou na fila e nós fomos com minha mãe. Havia muitas camas ali, mais de mil, ouvi uma pessoa dizer. Aos poucos foram sendo ocupadas por corpos e mentes exaustas. Tão logo me acomodei com Najma na nossa cama, dormi. Só me lembro de ter acordado com o sol brilhando, clareando o teto branco da barraca. Eu e minha irmã ficamos ali, sentados em nossa cama, atentos a tudo o que acontecia. Logo vieram outras pessoas, trazendo comida novamente para nós. Ofereceram mochilas novas, com pasta de dente, es...

Cap. 11 - Prontos pra partir!

Meu pai chegou à barraca dias depois, cansado. A barba por fazer e a cor roxa ao redor de seus olhos mostravam que os documentos que trazia em mãos tinham lhe custado exaustão física. Ele queria voltar ao centro de registro conosco; minha mãe tentou convencê-lo a ficar e dormir aquela noite na barraca. Não teve jeito, a fuga em meio a bombas, dias na fronteira com a Turquia, aquela travessia sombria pelo mar, tudo o empurrava de volta para o centro de registro. Com seus documentos em mãos, pudemos nos registrar também. Nossos dedos, um por um, foram copiados para o computador. Fotos de nossos rostos. As informações dadas por meu pai confirmadas com minha mãe. O caminho de volta para a barraca parecia um caminho de volta para casa. Meus pais felizes, sorrindo, caminhando sem pressa. Parecia passeio de domingo. Nós os cinco, como no dia que fomos visitar a Cidadela de Aleppo. Subimos as escadarias, eu e Najma, fazendo uma competição. Ela conseguia subir de dois em dois degraus, estican...

Cap. 12 - Na parede da estação

Tem coisas que é difícil para uma criança explicar. Mas isso não significa que ela não consiga entender. Assim me senti quando saímos do trem porque havíamos chegado noutro país. Era escuro, e estávamos cansados. Havia pessoas acampadas por toda a estação da cidade Idomeni também. Mais uma vez, arrumamos um canto para nós. Eu via as pessoas. Elas eram como nós. Mas eram muito diferentes ao mesmo tempo. Ninguém parecia feliz. Mas era Europa, não era? Tínhamos documentos de refugiados agora. Mesmo assim, a viagem não tinha terminado ainda. Eu sabia disso. Eu entendia que as coisas não estavam tão boas. Como eu sabia? Tinha muitas pessoas na mesma situação que nós; elas já estavam lá quando chegamos. E elas não estavam felizes. Então, não devíamos ficar felizes também. Além disso, havia os policiais, muitos, sempre ao nosso redor. Dava medo. Eles pareciam preocupados, não com a nossa situação, mas porque éramos muitos. E éramos estrangeiros. Acho que nos achavam estranhos e perigosos. A...

Cap. 13 - Empurrados para fora

Mesmo quando eu tinha uma janela, gostava de observar os cachorros e os passarinhos. Ficava acompanhando eles com os olhos, para ver se descobria se estavam no caminho de volta pra suas “casas” ou se estavam em alguma viagem por alimento. Eu gostava disso. De ver as cortinas das outras casas, de imaginar como era lá dentro. Se seus tapetes eram tão bonitos como os nossos. Se sua comida era tão saborosa. Imaginava as cadeiras, as almofadas. Imaginava e imaginava. Acho que nunca olhei para alguém com raiva. Mesmo assim, eu sempre soube que nem todas as pessoas são boas. Era uma criança, não um móvel, por isso eu sabia. Minha mãe e suas recomendações. A saída da escola. Os soldados de um lado, os soldados contra esses, e aqueles outros que não dava pra saber de que lado estavam. Nos últimos tempos em Aleppo eles foram aumentando, eram vistos por todos os lados. Lançavam bombas. Quem lança uma bomba numa escola? Gente ruim. Por isso eu sabia que nem todas as pessoas são boas. Eles acabara...

Cap. 14 - No contêiner

A família passou a noite à beira da estrada, junto com um grupo de pessoas. Algumas famílias e jovens que viajavam sozinhos. Todos sírios. O menino Daniyal não poderia lembrar dessa espera que se estendeu até ao amanhecer do dia seguinte. O motivo é que Labibah  deu uma dose dobrada de remédio pra enjoo às crianças. Ela não havia feito isso até aquele dia, pois não concordava com essa prática. Embora tivesse percebido nos acampamentos que vários pais o fizessem. Assim, nem no frio da Síria, nem na travessia do mar, nem mesmo na exaustão na Grécia dera remédio para seus filhos dormirem. Mas aquela noite sucumbiu e medicou as crianças. Agasalhou-as e mais uma vez dormiu um sono intermitente. Impossível entregar-se totalmente ao sono. Vigiou seus filhos por toda a madrugada. Pediu a Deus que os guardasse da viagem que fariam. O perigo era grande. Estavam cientes, mas era preciso prosseguir a viagem. Ao amanhecer, de um dia que prometia ser de sol forte novamente, acordaram com o baru...

Cap. 15 - Compaixão, mesmo a contragosto

Caminharam muito, até cansar. A sede não puderam saciar por completo, pois a água era pouca. As crianças, parecendo compreender a situação, não reclamavam. Comeram uma maçã cada uma e isso lhes bastou. No mais, as menores, que iam carregadas por Kadar e Labibah, resignaram-se a soltar o corpo no colo dos adultos, para facilitar que fossem carregadas. Enquanto foi possível, não ligaram lanternas. Assim, não chamaram atenção quando deixaram o grupo de refugiados ao lado do caminhão. Kadar acredita que não deram por sua falta, ou escolheram não denunciar aos policiais que devem ter ido checar a "ocorrência". Ninguém os seguiu mata adentro. Embora fosse um pouco assustador andar no meio de árvores, à noite, o grupo sentia-se seguro. Os adultos estavam decididos e não pareciam estar com medo. Kadar, anos mais tarde, contou a alguns amigos que estava aliviado. Era bom estar ali, sem a tensão de pessoas ao redor. Sem policiais, atravessadores e suas propostas, outros refugiados de...

Cap. 16 - Ajuda?

Na cidade de Naissus, Markus acabara de assumir seu turno, quando atendeu um telefonema.  Era um morador da zona rural, próxima a cidade, chamado Aleksandar. Ligou para  denunciar um grupo de estrangeiros indo para a cidade. Identificou-os como muçulmanos, dois adultos, três crianças e dois jovens. As leis estavam mudando, endurecendo no país. Desde que a Hungria construíra o muro na fronteira, as autoridades Sérvias ficaram com um grande contingente de refugiados dentro do país. Essas pessoas andavam pelas cidades, algumas com algum dinheiro, outras sem nenhum. Em Naissus os refugiados não eram bem vindos, por causa do turismo. A cidade natal de Constantino, o Grande, não estava preparada para receber os estrangeiros. Então, Markus decidiu sair para averiguar a denúncia. Se os encontrasse, levaria para autoridades superiores. A viatura escolhida foi  um camburão, para poder carregar todo o grupo. Na estrada, a família do pequeno Daniyal nem desconfiava da denúncia. Já e...

Cap. 17 - Rumo a Subótica

Por que está nos ajudando? Kadar queria saber. O sérvio passou a falar um pouco sobre si mesmo. "Sou professor de história. Para mim, uma guerra, qualquer uma, nunca é do povo. Povo não faz uma guerra. Povo sofre a guerra." Continuou contando histórias de sua família, bisavós, avós, todos que haviam sofrido com alguma guerra. Virando-se para Kadar, afirmou. Você também é professor, posso ver". Não houve resposta e Alex aceitou. Compreendia a insegurança do homem sírio a quem estava ajudando. Ajuda é coisa incomum. Repetidas vezes, o motorista olhou pelo retrovisor. Para a estrada? Não. Alguém os segue? Também não. Ele observava atentamente os dois adolescentes no banco de trás. Chegaram a Presevo no final da tarde. Alex deixou-os bem próximos a uma grande aglomeração de refugiados. Com grande alívio, o grupo se infiltrou na multidão e foi até o centro de registro. Com grande frustração, reiniciavam sua tentativa de atravessar a Sérvia. Passaram a noite numa pequena ...

Cap. 18 - O ponto de vista da fronteira

Naquele momento eu acabara de chegar ao trabalho. Nossos turnos ainda estavam estendidos porque a polícia especial da Hungria não tinha sido enviada para reforçar a fronteira. Os chamados "Caçadores das Fronteiras" chegaram cerca de um mês depois. Aquela semana seria uma das mais difíceis. De longe vi o grande grupo de refugiados se aproximando. A ordem era não deixá-los passar. Então eles foram chegando e se acomodando na frente da barreira de contenção. Aquelas grades e o arame farpado enrolado era o único obstáculo entre nós e a multidão que avistávamos. Nunca imaginei uma cena daquelas. Tratavam-se de pessoas como nós. Famílias inteiras com seus idosos e crianças. Foram chegando, chegando. Logo uma multidão estava concentrada à nossa frente e a barreira de contenção na verdade não servia pra muita coisa. Só que eles eram educados, não derrubaram a barreira. Apenas gritavam palavras de socorro em inglês. Também faziam um pedido: “Open”. Queriam chegar à estação de trem e...

Cap. 19 - Assim era meu pai

Passamos de ônibus ao lado da multidão que caminhava às margens do asfalto. Vi muitas crianças que, assim como eu e meus irmãos, iam um pouco carregados pelos pais, um pouco a pé. Escapamos de fazer aquela caminhada. Minha mãe percebeu que eu fiquei muito preocupado quando vi todas aquelas pessoas caminhando debaixo do sol quente. Então ela explicou no meu ouvido que nós já tínhamos caminhado antes, depois que saímos do caminhão. Agora era a vez deles. Fingi que a resposta era suficiente. Mas minha mãe sempre foi muito esperta. "Você não é bobo, né? Você é muito inteligente, meu filho". Então ela me disse que os documentos que conseguimos em Presevo nos permitiram comprar as passagens de ônibus legalmente na cidade de Subótica, bem como o Sr. Alex havia dito.  Um homem, levantou-se e falou alto para que todos pudessem ouvi-lo. Falou em sua língua, então não entendemos bem o que dizia. Mas logo compreendemos que se tratava de uma oferta de carona à algumas mulheres e crianças...

Cap. 20 - O ar fresco da praia

Quando chegamos em Szeged logo percebemos a grande confusão que se formara. A estação rodoviária estava lotada de pessoas refugiadas. Os policiais esforçavam-se para "escoar" a massa de pessoas para fora da estação. Assim, fomos saindo. Lasloz, nosso novo amigo, decidiu ficar conosco. Minha mãe ligava para meu pai, mas o celular dele estava sem sinal. Assim, entramos num pequeno restaurante e aguardamos. Depois de um tempo, o Sr. Lasloz foi até um posto policial. Voltou com a notícia de que a horda de refugiados já havia chegado à cidade. Era difícil localizar todas as pessoas, pois houve um grande espalhamento dos refugiados pela cidade. Por estratégia de logística da prefeitura local, muitos ônibus foram disponibilizados para levar grupos para cidades vizinhas. Os policiais lhe deram ainda a informação de que a situação na cidade era tensa. Muitos morados simplesmente não aceitavam a circulação dos sírios, de maioria muçulmana, pelas praças e comércio local. Por causa dis...

Cap. 21 - Onde está Kadar Mohamed Mastub?

Entrei na fila para servir a mim e a Najma, num prato só, assim ficava mais fácil. Minha mãe foi servida com Yusef em seu colo. Logo estávamos comendo purê de batatas, molho de carne, legumes cozidos e pão. Delicioso. Depois do almoço ficamos sentados, enquanto minha mãe conversava com outras pessoas, perguntando a respeito de meu pai. O abrigo de Sezged era bom. Em nosso quarto havia dois beliches. Minha mãe ajeitou Najma numa cama embaixo e eu em cima. Ela dormiu com Yusef na outra cama baixa. Acordávamos com uma música suave ao fundo. Repetíamos o ritual de ida ao banheiro. Só que antes eu sempre ia com meu pai. Agora eu ia sozinho, minha mãe levava Najma e Yusef; depois ela voltava e deixava os dois comigo no quarto, para só então cuidar de sua higiene. Meu pai não chegava. Minha mãe perguntava sobre ele às pessoas, na esperança de que alguém naquele abrigo tivesse feito a mesma caminhada. Até encontrou algumas dessas pessoas, mas ninguém que tivesse visto ou falado diretam...

Cap. 22 - Era só uma criança...

No dia 23 de setembro, Sr. Lasloz foi até o abrigo e conversou Labibah. Convenceu-a a ir para sua casa em Budapeste. Assim ele e sua família poderiam ajudar a cuidar das crianças. Também poderiam lidar diretamente com as autoridades responsáveis pelo gerenciamento da crise de refugiados. Na viagem, Lasloz começou a ouvir as histórias dessas pessoas as quais estava ajudando. "Sinto-me culpado, em parte, pela situação em que você e as crianças se encontram. A ideia de parar o ônibus partiu de mim.", confessou o homem que lembrava o pai de Labibah. Ela imediatamente corrigiu-o: "Nunca devemos por culpar por fazer a coisa certa." Lasloz agradeceu com um sorriso. Labibah olhava para a paisagem do lado de fora do carro. Os campos de trigo estavam verdes ainda. "Kadar era um homem perturbado pela culpa quando o conheci, ainda na universidade. Depois que nos casamos, antes de nascerem as crianças, lembro que acordava de pesadelos no meio da madrugada. Então ele chor...

Cap. 23 - Povo da Cruz

Na casa de Lasloz, em Budapeste, Labibah e as crianças foram recebidos como parte da família. Há muito tempo que ela e Kadar não sentiam esse calor humano. Sua história era de separação com as famílias. Ambas, a dela e a de Kadar, romperam laços com eles depois que se converteram ao cristianismo. Quando Yusef nasceu, os pais de Labibah foram visitá-los. E voltaram outras vezes. Mas os pais e irmãos de Kadar não quiseram mais vê-lo, por considerarem ingratidão depois de tudo o que fizeram para lhe proteger quando era criança. A família de Lasloz ouvia atentamente as histórias que Labibah contava. Assim aprendiam sobre o pensamento das pessoas no Oriente Médio. As explicações de Labibah os cativavam. Sentiam que haviam sido indiferentes com a realidade dos refugiados sírios até aquele momento. Compreenderam, entre outras coisas, que a mudança de religião no mundo muçulmano é algo muito complexo. Em geral, as famílias recebem isso como uma traição por parte do familiar. Assim, ele n...

Cap. 24 - Enfim, notícias!

Depois de uma semana recebemos notícias de meu pai, mas não como gostaríamos. Estava em um dos hospitais de Budapeste. Havia sido encontrado desacordado e sem documentos. O telefonema foi dado diretamente à minha mãe, numa tarde em que estávamos só nós em casa. Logo que desligou o telefone, minha mãe ligou para a esposa do Sr. Lasloz e ela pediu que esperássemos. Eles haviam ido uma cidade próxima, atrás de informações sobre meu pai. Um policial avisara que ele tinha sido reconhecido por uma família de refugiados e o Sr. Lasloz queria conversar com eles pessoalmente. Decidiram voltar no mesmo momento em que minha mãe contara que meu pai fora encontrado. "Espere, Labibah. Já entramos no carro. Em uma hora estaremos aí". Mas minha mãe não conseguiu esperar. O hospital em que meu pai estava era tão perto, que fomos andando. Em dez minutos chegamos lá. Só que houve um impasse. Crianças não podiam entrar na ala onde meu pai estava. Minha mãe entrou para vê-lo e eu fiquei sentado ...

Cap. 25 - Sem voz

Kadar sempre foi forte. Alto, bonito. Eu me agradei dele desde que o conheci. Não podia entender como tinha sido dominado por aqueles dois adolescentes. Mas o fato era esse. Ele me contou tudo. Primeiro o derrubaram e depois bateram muito. Quando acordou estava num mato, sem sua carteira e mochila. Caminhou até uma estrada próxima e desmaiou novamente. Lembra-se de ter acordado num hospital e depois ter sido colocado numa ambulância. Havia perdido a fala e passara dias semiconsciente. Até que acordara definitivamente. Porém, enxergava, gesticulava, mas não conseguia falar. Depois disso, lembra-se de acordar nesse hospital e de chamar meu nome. Só então, doze dias depois do ocorrido, conseguiu dizer seu nome completo à polícia. Logo registraram no banco de dados de refugiados. Por isso, fui chamada para vê-lo. Não tinha nem previsão de alta. Estava muito machucado. Hematomas enormes. Felizmente, sua cabeça havia desinchado, relataram os médicos. Queriam os nomes dos adolescentes. Pron...

Cap. 26 - As primeiras bombas

Onde estão Yusef e Najma? Foi a pergunta que fiz no hospital, assim que acordei. Encontraram meus filhos? Daniyal está bem? Cuidaram dele? “Se acalme, senhora”, disse a mulher vestida de branco à minha frente. Ela começou a falar sobre meus filhos, mas as palavras não faziam sentido. Ela falava em inglês, e eu não estava conseguindo entender. Depois de um tempo apareceu uma jovem que falava árabe e parou-se ao meu lado. Ele explicou que Daniyal estava dormindo ao meu lado. Eu não havia visto! Virei e quis levantar-me pra ir até sua cama, mas logo vi que não podia. Meu corpo estava adormecido e não respondia bem ao que meu cérebro mandava. Najma? Yusef? Então veio a resposta que eu não queria ouvir. “Ainda não foram encontrados, senhora. Mas a polícia está procurando. Fique tranquila; irão encontrá-los”. O desespero me arrancou da cama onde estava deitada e devo ter feito algo muito ameaçador, porque fui controlada por várias pessoas. Meus braços se debatiam, e eu gritava com todas ...

Cap. 27 - Qual o sentido?

A cena que vi ao abrir a porta de nosso apartamento foi absurda. Nossa porta ficava numa das pontas do corredor. A porta da família de Said e Latifa ficava na outra. No corredor havia três portas, as quais levavam a três famílias. Na primeira porta, logo à esquerda de nosso lar, moravam Abgail e Rashid, com seu pequeno bebê, Yusef como o meu. A porta seguinte pertencia à família de Talmid, o casal, os pais dele e os três filhos adolescentes. Na terceira porta ainda estavam Mohamed e sua esposa Jasmine que trabalhava comigo no hospital. Eles não tinham filhos e por isso, sempre que podiam, vinham à nossa casa passar um tempo conosco e as crianças. Jasmine amava meus filhos e vivia agradando-os com seus biscoitos de gengibre e seu tabule delicioso, carregado em hortelã. Como o tabule daquele dia, que ela trouxera à minha casa no começo da tarde e que na hora da explosão espalhava o aroma em nossa mesa.  A cena diante de mim era totalmente desprovida de sentido. A porta entreaberta mo...

Mais que um livro

Convido você para uma aventura. Uma aventura que vai além de uma história. Uma história emocionante. Emocionante como é a vida de uma pessoa. A vida de uma pessoa nunca é apenas uma entre tantas. Entre tantas, a vida de uma pessoa é única. Única como sua digital, sua letra, sua arcada dentária, sua íris, seu DNA. DNA é a identidade da qual não podemos fugir. Fugir em dadas situações é uma opção. Opção forçada, muitas vezes, quando não se tem mais escolha. Escolha é uma grande palavra. Palavra forte e ousada. Ousada como é a alma daquele que ousa ir além. Além-mar, além de onde estou, além de mim mesmo. Além de mim mesmo para encontrar com o outro. O outro e sua escolha. Escolha essa que pode custar muito para mim. Para mim que ousei ir além. Voltaria atrás? Aquém?  Essa história surgiu durante a onda de refugiados sírios que chegou à Europa desde 2015. Inclusive, quando eu e Silvano estivemos na Alemanha, presenciamos o começo dessa grande crise humanitária. Ent...

Cap. 28 - Policiais ao pé da cama

Deitada na cama hospitalar, os giros se tornaram incessantes. Meu labirinto respondia aos estímulos descontrolados da pressão arterial elevada. A falta de sentido – isso não estava no meu prontuário, mas era a causa do “stress pós-traumático prolongado” atestado pelo médico responsável. Acho que consideraram o fato de eu ter saído da síria sob bombardeio, e a travessia no mar, e a peregrinação comum aos refugiados, para então determinar o período como “prolongado”. Mas devia estar escrito lá: falta de sentido. Deixei o que era e o que tinha por causa dos meus filhos, e agora não sabia onde estavam, nem como  Daniyal estava se sentindo, nem sabia se Kadar teria sequelas dos machucados na cabeça. Falta de sentido. O último paciente, da última noite no hospital em Aleppo, chegou em choque. Pálido. Seu coração parou sem que achássemos o motivo de sua disritmia. Diminui o ritmo e parou. Não houve outro acontecimento senão o choque. Conclusão: sua psiquê enviou uma mensagem ao cérebro...

Cap. 29 - Travessia

A bateria do celular estava em 5%. Eu poderia carregá-la, mas achei que a tomada estava longe para ir até lá. Teria que usar um daqueles carregadores que os voluntários deixaram na estação. Desisti e peguei no sono. Acordei com a voz no alto falante: “Mulheres com crianças – Prioridade no embarque”. Dentro do trem entendi finalmente e achei o único sentido possível: a viagem. Não me tornei viajante quando deixei a Síria com minha família, mas naquele primeiro bombardeio no bairro de Bustan AL-Basha . Aquelas bombas me tiraram do meu lugar, roubaram meu trabalho, mudaram meu mundo e instalaram uma questão pelo sentido dentro de mim. A resposta tornou-se uma obsessão. Kadar estava decidido a cuidar de nós. Levantou-se assim que o trem parou. Gentilmente reuniu os seus e disse: Chegamos. Vamos. Sabe, fiquei com isso na cabeça. Chegamos. Vamos. Chegamos. Então deveríamos parar, estacionar. Finalmente sossegar e apenas viver. Mas era preciso continuar, era preciso ir. Não existe essa c...

Cap. 30 - Cruzando a porta

A porta do vagão abriu-se e uma luz cegou minha visão infantil. O brilho ofuscante era um convite. Como quiséramos chegar. Como choramos esperando estar ali. Como sofremos porque estávamos exaustos e ainda tão distantes. Milhares de quilômetros de distância. Agora estávamos ali diante da porta do vagão do trem. Finalmente chegamos! A voz de meu pai interrompeu: Vamos! Ao cruzarmos a porta do vagão, vimos milhares de pessoas à nossa frente! Um grupo em especial segurava cartazes com nossos nomes e fotos. "Herzlich willkommen", li num cartaz. Embora eu ainda não conhece o idioma alemão, eu sabia o que significava. Estava estampado nos rostos das pessoas ao redor. Sorrisos. Algumas lágrimas. Eu e meus irmãos ganhamos alguns presentes ali mesmo, na plataforma da estação. Ursos de pelúcia e doces. Meus pais choravam de alegria e repetiam "vielen Dank".   Não sei como, mas os novos amigos de nossa família providenciaram tudo para nós. Entregaram a chave de nossa nova ...

Cap. 31 - Labibah

Sinto-me feliz por estar com minha família nessa cidade. Depois de tudo o que enfrentamos, encontramos um novo propósito. E ele surgiu logo nos primeiros dias em Frankfurt. Caminhando pela cidade, andando de trem ou olhando pela janela, vimos que nossa situação era apenas uma gota em um grande oceano. Nossos olhos foram se abrindo para a grande mistura de pessoas. Ainda impressiona-me, mesmo depois de tantos anos, a multiplicidade de culturas estampada nos rostos dos que caminham pela cidade. Asiáticos e árabes certamente se destacam. Entretanto, as nacionalidades são da casa das centenas. Aqui é comum não ter passaporte vermelho. Aliás, ser cidadão de Frankfurt é ser um cidadão estrangeiro. As pessoas são muitas e elas não param. Estão sempre andando. Arrastando malas de rodinhas, ou carregando mochilas nas costas. Estão sempre indo a algum lugar. Sempre carregando coisas. As pessoas aqui nunca param. Também não param de chegar. Cada uma delas tem uma história única. Verdadeira ep...